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Aversão à perda e efeito disposição: por que você corta o ganho e segura a perda

Perder dói cerca de duas vezes mais do que ganhar alegra. O que isso faz com o stop e com o alvo, o que o estudo de 10 mil contas mostrou e a regra que corrige.

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Perder R$ 100 dói mais do que ganhar R$ 100 alegra. Não um pouco mais: cerca de duas vezes mais. É a aversão à perda, a descoberta mais conhecida de Daniel Kahneman e Amos Tversky, publicada na teoria da perspectiva, em 1979. Numa estimativa de 1992, os dois chegaram a um fator de 2,25: a mesma quantia pesa 2,25 vezes mais quando é perda. Kahneman conta que a maioria das pessoas recusa uma aposta de cara ou coroa em que perderia 100 ou ganharia 150: o ganho possível é maior, e mesmo assim não compensa a dor da perda possível.

Na vida, isso protege. No trade, produz o padrão mais caro que existe: cortar o ganho cedo e deixar a perda correr.

O efeito disposição

Em 1985, Hersh Shefrin e Meir Statman deram nome ao comportamento: efeito disposição, a disposição de vender o que está ganhando e segurar o que está perdendo. Em 1998, Terrance Odean mediu isso em 10 mil contas de uma corretora americana, de 1987 a 1993. Fora do mês de dezembro, os investidores realizavam 14,8% dos ganhos que tinham na carteira e só 9,8% das perdas. Vendiam o que subia, guardavam o que caía.

E o pior: as ações vendidas no lucro continuavam, em média, rendendo mais do que as guardadas no prejuízo. A decisão não era só emocional; era cara.

Por que acontece

Com o ganho na mão, a cabeça quer garantir: realizar é transformar um ganho que pode sumir num ganho certo. Com a perda na mão, a cabeça quer evitar a certeza: enquanto não vende, a perda "ainda não é real". A mesma pessoa é cautelosa com o ganho e aventureira com a perda.

Somam-se dois parentes:

  • O efeito dotação. O que é nosso parece valer mais. Num experimento clássico de Kahneman, Knetsch e Thaler, de 1990, quem ganhava uma caneca pedia cerca do dobro para vendê-la do que quem não tinha a caneca aceitava pagar. A posição aberta vira "minha", e sair dela parece perda de algo que é seu.
  • O custo afundado. "Já perdi tanto nessa operação que agora preciso esperar voltar." O dinheiro perdido não volta por você esperar; a única pergunta útil é se você entraria nessa posição agora, a esse preço.
Uma curva em S da teoria da perspectiva: do lado dos ganhos ela sobe e achata; do lado das perdas ela desce mais íngreme, cerca de duas vezes; marcas mostram que R$ 100 perdidos pesam 2,25 vezes o que pesam R$ 100 ganhos
A curva de valor de Kahneman e Tversky: a perda desce mais íngreme que o ganho sobe. Ilustração da forma, com o fator de 2,25 da estimativa de 1992.

O que isso faz com uma estratégia

Suponha uma regra com stop de 100 pontos e alvo de 200, que acerta 40% das vezes. Pela regra, a cada dez operações: 4 ganhos de 200 e 6 perdas de 100. Saldo: 200 pontos positivos.

Agora a mesma regra operada com aversão à perda: o ganho é realizado em 100 "para garantir", e o stop é afastado para 150 "para dar espaço". Se a taxa de acerto não mudar, são 4 ganhos de 100 e 6 perdas de 150: saldo de 500 pontos negativos. A regra era boa. A execução transformou em ruim, sem mudar uma linha dela.

É exatamente o que desfaz o payoff de uma estratégia, e está em Fator de lucro, payoff e taxa de acerto.

Aversão à perda em quem usa robô

Automatizar a execução tira a aversão à perda de cada operação, mas ela volta num nível acima:

  • Desligar a estratégia depois de alguns stops, para "parar de perder", e perder a recuperação que o histórico dela mostra que vem depois.
  • Religar só depois que ela volta a ganhar, pegando a fase boa pela metade.
  • Fechar na mão a operação que está ganhando, para garantir, e deixar correr a que está perdendo, esperando o stop, que é o efeito disposição de volta.

A defesa é a mesma: critério escrito antes, para ligar, desligar e intervir, e julgamento pela amostra longa. Está em Day trade com robô quando a meta é o longo prazo.

O que corrige

  1. Stop e alvo decididos antes da entrada, com base no mercado (a volatilidade, os níveis), e não no quanto você aguenta ver no dia.
  2. Execução que não passa pelo seu dedo. Um stop que está na plataforma, ou no robô, sai quando tem que sair.
  3. Regras escritas para proteger o ganho, no lugar do impulso de realizar: breakeven depois de um tanto de ganho, realização parcial, stop móvel. Estão em Breakeven, Realização parcial e Stop móvel.
  4. Um limite de perda do dia, que encerra a discussão com você mesmo. Veja Limite de perda por dia, semana e mês.
  5. Olhar a operação encerrada pelo que a regra mandava, e não pelo resultado. Uma perda dentro da regra é uma operação certa.

O livro Dias de Fúria no Mercado é sobre o dia em que você tira o stop "só desta vez", e sobre os protocolos que impedem esse dia de destruir a conta. O mapa dos outros vieses está em Psicologia do trader.