Realização parcial: sair com metade e deixar o resto correr
Fechar parte no primeiro alvo e levar o resto ao segundo. A conta que quase ninguém faz, quando a parcial ajuda e por que costuma piorar quem opera um contrato.

"Realizei parcial" é uma das frases mais ditas em sala de operação, e uma das menos testadas. A ideia: a operação chega num primeiro alvo, você fecha parte (metade, um terço), e deixa o resto correr para um alvo maior, muitas vezes com o stop no zero a zero. Garante algo no bolso e mantém a chance do movimento grande.
Parece o melhor dos dois mundos. A conta mostra outra coisa.
A regra
Numa compra de 2 contratos com alvo em 200 pontos: no primeiro alvo (digamos 100 pontos), vende 1; o outro fica para os 200, ou para um stop móvel. Três parâmetros: onde é a parcial, quanto sai e o que acontece com o stop do resto.
A matemática que ninguém faz
Pegue a operação sem parcial: 2 contratos, stop de 100, alvo de 200. Ganha 400 pontos-contrato no alvo, perde 200 no stop.
Com parcial em 100 (1 contrato) e o resto ao alvo de 200: se o mercado vai ao alvo, ganha 100 + 200 = 300 em vez de 400. Se o mercado volta depois da parcial e para o resto no zero a zero, ganha 100 em vez de 0. Se para no stop cheio, perde 200 nos dois casos.
Ou seja: a parcial troca 100 pontos das operações vencedoras por 100 pontos nas operações que teriam voltado. Se a estratégia tem mais alvos cheios do que voltas depois do primeiro alvo, a parcial piora o resultado. Se tem mais voltas, melhora. Não há resposta geral; há a distribuição das saídas da sua estratégia.
O que a parcial faz com certeza é reduzir a variância: os ganhos ficam menores e mais frequentes, as sequências de perda mais curtas. A curva fica mais lisa e, em muitos casos, mais baixa. É uma troca, e é honesta desde que você saiba o que está trocando.

Quem opera um contrato
Aqui a conta muda de natureza: com 1 contrato não existe parcial. Não dá para vender meio mini-índice. Quem opera um contrato e quer parcial precisa operar dois, e aí o risco por operação dobrou. É o erro mais comum: a pessoa dobra o lote "para poder fazer parcial" e passa a arriscar o dobro por causa de uma técnica que, isolada, nem sempre melhora o resultado.
Para um contrato, a alternativa é o stop móvel: em vez de vender metade no primeiro alvo, o stop sobe. Protege parte do ganho sem reduzir a posição. As formas estão em Stop móvel, trailing stop e stop ATR.
Quando a parcial ajuda
- Estratégias com alvo longo e muita volta. Rompimentos que andam e devolvem, em mercado que não sustenta tendência. A parcial captura o que o mercado dá com frequência.
- Estratégias que escalonam a entrada. Quem entra em partes (o gradiente, por exemplo) sai em partes com naturalidade; a parcial é o espelho da entrada. Escrevemos sobre entrar em partes em Gradiente linear no gerenciamento de ordens.
- Quando a maior queda importa mais que o total. Curva mais lisa vale dinheiro para quem não aguenta a curva original. Só precisa saber quanto custa.
Quando ela atrapalha
- Estratégias de tendência com alvo grande e poucas voltas: a parcial corta o que paga a estratégia.
- Quem dobra o lote só para poder fazer parcial.
- Quem usa a parcial para "sentir que ganhou" e depois deixa o resto sem stop. A parcial não substitui a regra de saída do resto; ela precisa de uma.
Como testar
Duas versões da mesma estratégia no simulador, com o mesmo lote total: uma sem parcial, uma com. Compare o resultado, a maior queda e o tamanho médio do ganho. Se a parcial tem parâmetros (onde, quanto), não os otimize sem walk-forward, pela razão de sempre: Otimização de parâmetros e overfitting.
Como vira regra num robô
Um nível (em pontos, percentual ou múltiplo do risco), uma fração da posição e o que fazer com o stop do restante. No Centurion, a Realização Parcial é um bloco de saída; também dá para realizar uma fração da posição quando uma leitura de saída de qualquer indicador valer, em vez de num nível fixo. Como sempre, o bloco existe para ser testado, não para ser ligado por hábito.


