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Excesso de confiança no trade: o que os números dizem de quem opera demais

O estudo de 66 mil famílias em que quem mais operava rendeu 11,4% ao ano contra 17,9% do mercado, o que o excesso de confiança faz e como a regra o limita.

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Pergunte a um grupo de motoristas se eles dirigem melhor que a média, e a maioria diz que sim. Pergunte a quem opera se sabe mais que a média dos outros, e acontece o mesmo. Não dá para a maioria estar acima da média. É o excesso de confiança: o viés de achar que se sabe mais, que se prevê melhor e que se controla mais do que de fato.

No mercado, ele tem um sintoma que dá para medir: operar demais.

O estudo das 66 mil famílias

Em 2000, Brad Barber e Terrance Odean publicaram um estudo com o título que já diz a conclusão: "Trading Is Hazardous to Your Wealth", operar faz mal ao seu patrimônio. Analisaram 66.465 famílias com conta numa corretora americana, de 1991 a 1996.

  • O mercado rendeu 17,9% ao ano no período.
  • A família média rendeu 16,4% ao ano, girando 75% da carteira por ano.
  • As famílias que mais operavam renderam 11,4% ao ano.

Quem mais mexeu, mais perdeu para o mercado. Antes dos custos, as escolhas de quem operava muito não eram muito diferentes das dos outros; o custo de tanta operação é que comeu o resultado. Toda aquela atividade não trouxe informação nenhuma que pagasse a conta. Os autores apontaram o excesso de confiança como a explicação mais provável para tanta atividade.

No Brasil, o estudo da FGV sobre o day trade de mini-índice (Chague e Giovannetti, 2020) mostra o outro lado da mesma moeda: das pessoas que persistiram por mais de 300 pregões, 97% perderam dinheiro. Persistir, com a convicção de que a próxima fase vai ser diferente, não mudou a distribuição. Está em Day trade vale a pena?.

Três barras de retorno anual: o mercado com 17,9%, a família média com 16,4% e as famílias que mais operavam com 11,4%; ao lado, uma seta indicando que o giro da carteira aumenta da esquerda para a direita
Retorno anual de 66.465 famílias, 1991 a 1996 (Barber e Odean, 2000). Quem mais operou, menos rendeu.

Como ele aparece em quem opera

  • Aumentar o lote depois de uma sequência boa. Três dias de ganho viram "agora eu entendi o mercado", e o lote sobe justamente antes da fase ruim, que vem para toda estratégia.
  • Operar fora da regra "só dessa vez", porque o gráfico está "muito claro".
  • Desligar o filtro que atrapalhou ontem. O filtro existia por um motivo que o histórico mostrou; a convicção de hoje não mostrou nada.
  • Confiar no backtest perfeito. Otimizar parâmetros até a curva ficar lisa é excesso de confiança no passado. O risco está em Otimização de parâmetros e overfitting.
  • Achar que vai perceber a hora de sair. A maioria não percebe; descobre depois.

O teste de calibração

Uma forma clássica de medir o excesso de confiança é pedir às pessoas intervalos em que elas têm 90% de certeza de acertar: "a população de tal país está entre X e Y". Se estivessem bem calibradas, o valor certo cairia dentro do intervalo em 9 de cada 10 perguntas. Em experimentos desse tipo, cai muito menos vezes: os intervalos são estreitos demais, porque a pessoa confia mais no que sabe do que deveria.

No trade, o equivalente é o stop curto demais e o alvo certo demais. O diário de previsões, com a confiança anotada antes, é o seu teste de calibração pessoal, e está em Viés de retrospectiva.

Depois de uma sequência boa

O momento de maior risco não é depois da perda; é depois de uma sequência de ganhos. A confiança sobe, o lote sobe junto, e a fase ruim, que vem para toda estratégia, chega com o lote maior. Uma regra que só permite mudar o lote em data marcada, e pela conta de risco, fecha essa porta.

O que limita

O excesso de confiança não se cura com humildade de ocasião. Limita-se com regra que não depende do humor do dia:

  1. Número máximo de operações por dia. Se a estratégia opera duas vezes, a terceira é convicção, não regra.
  2. Lote fixo pela conta de risco, que só muda por decisão tomada fora do pregão e por escrito. A conta está em Dimensionamento de posição.
  3. Um diário que compara o que você previu com o que aconteceu. Anotar a previsão antes e conferir depois é o jeito mais barato de descobrir quanto você acerta de verdade.
  4. Julgar pela amostra, não pela sequência. Três semanas não dizem nada sobre uma regra. Quantas operações bastam está em Quantas operações para julgar um robô.

No Centurion, a contagem de operações por dia e por período, os limites financeiros e o dimensionamento pelo risco do capital são blocos da estratégia, decididos antes do pregão. O mapa dos outros vieses está em Psicologia do trader, e o livro Dias de Fúria no Mercado trata do dia em que a convicção vira desastre.