Viés de retrospectiva: o "eu sabia" que estraga a revisão das operações
Depois que acontece, parece que dava para saber. O viés de retrospectiva na revisão das operações e no backtest, e por que anotar antes corrige.
Por Marcelo Hoepfner

O índice caiu 3% no dia. À noite, a explicação está pronta: o dado americano, o juro, a notícia da manhã. E vem a frase: "estava na cara". Não estava. Se estivesse, você teria vendido de manhã. O que aconteceu é que, depois do fato, a cabeça reorganiza a memória e faz o resultado parecer inevitável.
É o viés de retrospectiva, ou o "eu sabia". Ele não custa dinheiro diretamente. Custa aprendizado, que é pior: quem acha que sabia não descobre o que não sabia.
O experimento das previsões
No começo dos anos 1970, os psicólogos Baruch Fischhoff e Ruth Beyth pediram a pessoas que estimassem a probabilidade de vários desfechos de uma viagem diplomática que ainda ia acontecer. Depois da viagem, pediram que lembrassem das próprias estimativas. As pessoas lembravam ter dado probabilidade mais alta ao que de fato aconteceu, e mais baixa ao que não aconteceu. A memória da previsão se ajustou ao resultado.

Onde ele atrapalha quem opera
Na revisão das operações. A operação que deu stop parece, olhando o gráfico depois, obviamente errada: "o sinal era fraco". Mas era o mesmo sinal que, na operação anterior, deu certo. Julgar cada operação pelo resultado, com o gráfico completo na frente, ensina a ver padrões que não existiam na hora.
Na mudança da regra. "Se eu tivesse um filtro de horário, não teria entrado." Com o gráfico passado, sempre existe um filtro que teria evitado a perda. Colocar esse filtro é ajustar a regra ao que já aconteceu, e está em Otimização de parâmetros e overfitting.
No backtest. Quem monta uma estratégia olhando o gráfico histórico já sabe o que aconteceu, e escolhe, sem querer, as ideias que teriam funcionado. O teste fora da amostra existe por isso: Backtest, forward test e walk-forward.
Na confiança. Se tudo "estava na cara" depois, a pessoa conclui que prevê bem, e alimenta o excesso de confiança, que está em Excesso de confiança no trade.
Anotar antes: o único antídoto
A retrospectiva reescreve a memória, então a correção é não depender dela:
- Anote a previsão antes, com as alternativas e a confiança: "acho que o índice sobe hoje, 60% de chance, e estou errado se perder a mínima de ontem". Depois, compare com o que aconteceu. Em alguns meses, você terá uma medida real de quanto acerta.
- Separe decisão de resultado. Uma operação dentro da regra que deu stop foi uma decisão certa com resultado ruim. Uma operação fora da regra que deu lucro foi uma decisão errada com sorte. A revisão julga a decisão.
- Revise pela amostra, não pela operação. A pergunta não é "por que essa operação perdeu?", e sim "o conjunto das operações está dentro do que o histórico mostrou?". Veja Quantas operações para julgar um robô.
- Mudança de regra só com teste, fora do período que motivou a mudança.
Retrospectiva na revisão do robô
O viés aparece com força quando uma estratégia automatizada perde. Olhando o gráfico do dia, com o movimento inteiro desenhado, é fácil dizer: "era óbvio que era dia de tendência, a estratégia de reversão não devia ter operado". Na hora, não era óbvio: a mesma abertura, em outros dias, virou lateral.
A tentação é colocar um filtro que teria evitado aquele dia. Com o gráfico na frente, sempre existe um. O teste honesto é o contrário: descrever a condição do filtro sem olhar o dia que motivou a ideia, testá-la no histórico inteiro e ver se ela melhora o resultado nos outros dias também. Se só melhora o dia que você viu, é retrospectiva virando regra.
Um diário que funciona
Não precisa ser sofisticado. Uma linha por dia, escrita antes do pregão e completada depois:
- Antes: o que espero do dia, com que confiança, e o que me faria mudar de ideia.
- Depois: o que aconteceu, e se as operações seguiram a regra.
- Uma vez por mês: quantas previsões acertei com 60% de confiança, com 80%, com 90%. Se as de 90% acertam 60% das vezes, você descobriu o tamanho do seu excesso de confiança.
O que o diário faz é congelar a previsão antes que a memória a reescreva.
O mapa dos outros vieses está em Psicologia do trader.


