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Custo afundado: o dinheiro perdido não volta por você insistir
A viagem de US$ 100 escolhida no lugar da de US$ 50, que seria melhor. O custo afundado na operação perdedora e na estratégia que já custou caro.
Por Marcelo Hoepfner

"Já perdi tanto nessa operação que agora não posso sair." "Já paguei o curso, já gastei meses nessa estratégia, não vou largar agora." As duas frases têm o mesmo erro: deixar o que já foi gasto decidir o que fazer a seguir. O dinheiro e o tempo gastos não voltam, qualquer que seja a decisão. Por isso se chamam custo afundado.
A viagem que ninguém queria
Em 1985, Hal Arkes e Catherine Blumer apresentaram a estudantes uma situação. Você comprou uma viagem de esqui por US$ 100. Semanas depois, comprou outra, por US$ 50, que vai aproveitar mais. Então descobre que as duas caem no mesmo fim de semana, e nenhuma pode ser devolvida. Qual você faz?
O dinheiro das duas já foi gasto; a única diferença que resta é qual você vai aproveitar mais. Mesmo assim, 54% escolheram a viagem de US$ 100, a que aproveitariam menos. O preço pago pesou mais que o prazer que viria.

No trade
A operação que passou do stop. O prejuízo de agora já é real, com ou sem venda. Ficar é uma operação nova, com o risco de agora, e não uma forma de "não perder". Quem espera voltar só porque já perdeu está deixando o passado apostar o futuro. O que isso faz com o resultado de uma estratégia está em Aversão à perda e efeito disposição.
O preço médio. Comprar mais para baixar o médio de uma posição perdedora é o custo afundado com dinheiro novo: aumenta a aposta na operação que já está errada. Está em Aumento de posição: piramidar com regra e, na versão extrema, em Martingale.
A estratégia que já custou caro. Meses de teste, um curso, uma assinatura. Quando os números da estratégia saem de tudo o que o histórico dela mostrou, o investimento feito nela não é argumento para continuar. O argumento é o histórico.
O dia perdido. "Perdi de manhã, preciso recuperar à tarde." A perda da manhã é custo afundado. A tarde é outra operação, e o limite de perda do dia existe para ela não virar a continuação da manhã. Veja Limite de perda por dia, semana e mês.
Um exemplo com números inventados
Dois minicontratos comprados; o índice caiu 300 pontos, e o prejuízo é de 300 × R$ 0,20 × 2 = R$ 120. O stop da regra estava em 200 pontos e passou. A pergunta do custo afundado é "como recupero os R$ 120?". A pergunta útil é outra: se eu estivesse zerado agora, compraria dois contratos aqui, com o stop que faria sentido daqui? Se a resposta é não, os R$ 120 já foram perdidos de qualquer jeito, e ficar é só arriscar mais dinheiro por causa deles.
O custo afundado do tempo
Nem todo custo afundado é dinheiro. Meses estudando um setup, noites montando uma estratégia, um curso caro: tudo isso pesa na hora de admitir que a ideia não funciona. "Depois de tanto tempo, não posso largar." O tempo gasto não volta se você continuar; ele só aumenta.
Quando continuar é a decisão certa
Custo afundado não quer dizer que toda insistência é erro. Continuar é certo quando a razão está para a frente: a fase ruim está dentro do que o histórico da estratégia já mostrou, a amostra ainda é pequena para julgar, o mercado não mudou de um jeito que invalida a regra. A diferença está no argumento. "Continuo porque os números dizem que isso é normal" olha para a frente. "Continuo porque já investi muito" olha para trás.
Sair ou insistir: o critério que não olha para trás
A pergunta útil é sempre para a frente: daqui em diante, qual decisão tem o melhor resultado esperado? O que já foi gasto não entra na conta, porque não muda com a decisão.
Para uma estratégia, isso vira critério escrito antes, enquanto ela ainda não custou nada:
- O limite de queda que desliga. Uma queda maior que a pior do histórico, com uma folga definida, é o sinal de que a estratégia pode ter mudado. Veja Drawdown.
- O prazo de julgamento. Quantas operações ou quantos meses antes de avaliar, para não decidir por uma fase. Veja Quantas operações para julgar um robô.
- A régua de comparação. Contra o próprio histórico, e contra o CDI.
Com o critério escrito, a decisão de parar deixa de ser uma derrota pessoal e vira o cumprimento de uma regra. O mapa dos outros vieses está em Psicologia do trader.


