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Viés de confirmação: o trader que só procura o que concorda com ele

O que é o viés de confirmação, como ele escolhe as notícias, o gráfico e o backtest que você olha, e as práticas que obrigam a olhar o outro lado.

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Você comprou. A partir desse momento, a notícia boa sobre o ativo parece importante e a ruim parece exagerada. O gráfico de 5 minutos mostra fraqueza, mas o de 60 mostra força, e você passa a olhar o de 60. Isso é o viés de confirmação: a tendência de procurar, notar e lembrar o que concorda com o que você já pensa, e de pular o que discorda.

Não é desonestidade. É o jeito normal da cabeça economizar esforço: uma ideia já formada vira o filtro por onde passa a informação nova.

O experimento dos três números

Em 1960, o psicólogo Peter Wason deu a voluntários a sequência 2, 4, 6 e pediu que descobrissem a regra que a gerava, propondo outras sequências e ouvindo "sim" ou "não". A maioria testava sequências que confirmavam o palpite deles ("8, 10, 12", "20, 22, 24"), ouviam "sim" e anunciavam a regra errada, "números pares de dois em dois". A regra era só "números crescentes". Quem testou uma sequência que poderia dar "não" (como 1, 7, 30) descobriu. Quem só procurou o "sim", não.

O trader faz o mesmo teste todo dia, e com dinheiro.

Duas colunas de evidências sobre uma operação comprada: à esquerda, as que confirmam, em destaque e grandes; à direita, as que contrariam, pequenas e apagadas; embaixo, uma balança que só pesa a coluna da esquerda
O viés de confirmação não esconde a evidência contrária; só faz ela parecer pequena. Ilustração.

Onde ele aparece

Na operação aberta. O stop foi atingido, mas "o suporte do diário ainda está valendo". O tempo gráfico, o indicador e a notícia são escolhidos depois, para sustentar a posição.

Na análise. Quem acredita que o mercado vai subir lê os analistas que acham que vai subir. O feed da rede social ajuda: mostra mais do que você já curtiu.

No backtest. É onde ele é mais caro e mais invisível. Testa-se a ideia, o resultado é ruim, muda-se um parâmetro, testa-se de novo, até aparecer o resultado que confirma a ideia. A curva final é real, mas foi escolhida entre dezenas. O nome técnico é sobreajuste, e está em Otimização de parâmetros e overfitting.

Na avaliação da estratégia. Os meses bons provam que ela funciona; os ruins são "fase atípica". Ou o contrário, para quem já quer desligar.

As práticas que obrigam a olhar o outro lado

  1. Escreva antes o que invalida a ideia. Antes de entrar, a frase: "estou errado se o preço fechar abaixo de X". Esse X é o stop. Depois de entrar, não se reabre a discussão.
  2. Teste fora da amostra. Separe um pedaço do histórico que você não olhou enquanto montava a regra, e só teste nele no fim, uma vez. É o que está em Backtest, forward test e walk-forward.
  3. Comece pelo pior. Ao avaliar uma estratégia, olhe primeiro a maior queda, o pior ano e o tempo para se recuperar, e só depois o retorno. Veja Drawdown e Tempo de recuperação.
  4. Conte as tentativas. Anote quantas variações da regra você testou até chegar na escolhida. Vinte tentativas pedem um resultado muito mais forte que uma.
  5. Procure quem discorda. Antes de uma decisão grande, leia de propósito o melhor argumento contrário. Se você não consegue resumir o outro lado, ainda não entendeu o seu.

Confirmação em grupo

O viés fica mais forte em grupo. Um grupo de pessoas que acreditam na mesma tese troca as notícias que a confirmam, e quem traz a notícia contrária vira o chato do grupo. Em pouco tempo, todo mundo tem certeza, e a certeza vem da repetição, não dos fatos. É o viés de confirmação somado ao efeito manada, que está em Efeito manada na bolsa.

Um exemplo no backtest, com números inventados

Você testa 20 variações de uma ideia. Dezenove dão fator de lucro perto de 1,0 (nem ganham nem perdem, depois do custo). Uma dá 1,8. A tentação é concluir que a ideia funciona na versão 1,8. A leitura honesta é a outra: a ideia, em geral, não funciona, e a versão 1,8 é a que teve sorte no período testado. O teste fora da amostra, só nela, costuma mostrar isso.

O que a regra escrita resolve

Uma estratégia executada por regra não escolhe o tempo gráfico depois do fato. O stop é o que foi escrito, e o julgamento vem da amostra inteira, não da parte que convém. O viés continua existindo em quem monta a regra: por isso o teste fora da amostra e a contagem de tentativas valem tanto quanto a automação.

O mapa dos outros vieses está em Psicologia do trader. Para ver uma estratégia julgada pelo histórico inteiro, com as fases ruins publicadas, veja as nossas estratégias na OnTick.