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Falácia do apostador e viés de recência: a sequência não avisa o que vem

Cinco stops seguidos não tornam o próximo ganho mais provável, e três meses bons não provam nada. Os dois erros de ler sequência e como o histórico corrige.

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Dois erros opostos sobre a mesma coisa: a sequência de resultados.

A falácia do apostador acha que a sequência vai se corrigir: depois de cinco stops, "agora tem que dar certo". O viés de recência acha que a sequência vai continuar: depois de três meses bons, "essa estratégia é boa"; depois de três ruins, "parou de funcionar". Um espera a virada, o outro não espera nada além do que acabou de ver. Os dois leem demais numa amostra pequena.

A falácia do apostador

Uma moeda caiu cara cinco vezes. A chance de cair coroa na sexta é a mesma de sempre: metade. A moeda não lembra. Mesmo assim, quase todo mundo sente que a coroa "está devendo".

No trade, a falácia aparece como: "já foram cinco stops, o próximo é ganho, vou aumentar o lote". É a porta de entrada do martingale, e a conta do que ele faz está em Martingale. Se as operações de uma estratégia são independentes umas das outras, a sequência de perdas não muda a chance da próxima. E se não são independentes, muitas vezes é o contrário do que a falácia supõe: o mercado que não favorece a regra hoje continua não favorecendo amanhã, porque a volatilidade e a tendência vêm em fases.

Sequências longas são normais

A intuição subestima o tamanho das sequências que o acaso produz. As contas, para operações independentes:

  • Com 50% de acerto, em 100 operações, a chance de aparecer pelo menos uma sequência de 5 perdas seguidas é de 81%.
  • Com 40% de acerto, em 250 operações (cerca de um ano, uma por pregão), a chance de uma sequência de 8 perdas seguidas é de 82%; de 10 seguidas, 45%.
  • Com 60% de acerto, nas mesmas 250 operações, 5 perdas seguidas aparecem com 79% de chance.

Uma estratégia boa, com 40% de acerto e bom payoff, vai ter um ano com oito ou mais stops seguidos. Não é defeito. É estatística. Quem não sabe disso desliga a estratégia no meio da sequência que o próprio histórico dela já tinha.

Uma fileira de 100 operações como quadradinhos verdes e vermelhos, gerada ao acaso com 50% de acerto, com as sequências de cinco ou mais vermelhos destacadas; ao lado, um gráfico de barras com a chance de cada tamanho de sequência aparecer em 250 operações com 40% de acerto
Cem operações ao acaso com 50% de acerto: sequências longas aparecem sem nenhum motivo. As chances ao lado são calculadas para 250 operações com 40% de acerto.

O viés de recência

É dar peso demais ao que aconteceu por último. O mês passado parece mais informativo que os cinco anos anteriores, porque é o que está na memória.

No trade, ele faz três estragos:

  • Liga a estratégia no topo. Depois de meses bons, a estratégia parece irresistível, e o dinheiro entra perto do fim da fase boa.
  • Desliga no fundo. Depois de meses ruins, parece que "parou de funcionar", e o dinheiro sai perto do começo da recuperação.
  • Muda a regra pelo último mês. Ajusta o parâmetro para o que teria ganho em agosto, e a regra fica sob medida para um mês que não volta.

O antídoto é olhar o mês como um ponto na curva. Está em Day trade com robô quando a meta é o longo prazo.

O exercício da moeda

Um exercício clássico mostra quanto a intuição erra: peça a uma pessoa que escreva, de cabeça, uma sequência de 100 lançamentos de moeda que "pareça aleatória", e compare com 100 lançamentos de verdade. A sequência inventada quase sempre alterna demais e tem poucas sequências longas; a verdadeira tem sequências de cinco, seis, sete iguais sem esforço. A cabeça acha que o acaso se corrige rápido. Ele não se corrige.

Quem opera carrega a mesma intuição, e por isso estranha as sequências de stops que o acaso produz sozinho. A figura deste artigo mostra uma sequência dessas, gerada ao acaso.

Como o histórico corrige os dois

  1. Saiba a maior sequência de perdas do histórico da sua estratégia, e a quantidade de operações por trás dela. Uma sequência dentro desse tamanho não é notícia.
  2. Julgue por amostra, não por período. Quantas operações bastam para dizer alguma coisa está em Quantas operações para julgar um robô.
  3. Compare a fase atual com as fases ruins que já existiram: a maior queda e o tempo que levou para voltar. Estão em Drawdown e Tempo de recuperação.
  4. Nunca mude o lote pela sequência. Nem para cima depois de ganhos, nem para "recuperar" depois de perdas. O lote vem da conta de risco.

Nas nossas estratégias na OnTick, cada ficha mostra o histórico com a maior queda e o tempo de recuperação, justamente para que a fase de hoje possa ser comparada com as que já passaram. O mapa dos outros vieses está em Psicologia do trader.