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Viés de familiaridade: investir só no que você conhece

Investidores deixam mais de 90% das ações no próprio país. O viés de familiaridade, a concentração que ele cria e como diversificar pelo comportamento.

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"Invisto no que conheço." Parece prudência, e é um dos conselhos mais repetidos do mercado. O problema é que conhecer uma marca, uma empresa ou um ativo não é o mesmo que saber o risco dele. O viés de familiaridade é a preferência pelo que é conhecido, só por ser conhecido, e ele produz carteiras concentradas que o dono acha diversificadas.

O investidor que fica em casa

Em 1991, os economistas Kenneth French e James Poterba mediram quanto das carteiras de ações ficava no próprio país. Nos Estados Unidos e no Japão, mais de 90%. Pela teoria, quem quer diversificar deveria ter ações do mundo inteiro, na proporção do tamanho de cada mercado. Quase ninguém tinha. O fenômeno ganhou nome, viés doméstico, e continua sendo medido até hoje.

No Brasil, a conta é a mesma: a bolsa brasileira é uma fração pequena do valor das bolsas do mundo, e é comum a carteira de ações de quem investe aqui ser toda daqui.

Dois painéis com o resultado por dia de estratégias: em cima, três robôs de tendência no mesmo ativo que ganham e perdem nos mesmos dias; embaixo, duas estratégias que perdem em dias diferentes e se compensam
Três nomes podem ser uma aposta só: o que diversifica é perder em dias diferentes. Ilustração com números inventados.

Como ele aparece

As ações das marcas do dia a dia. O banco da sua conta, a empresa de energia da sua cidade, a varejista onde você compra. Conhecer o produto dá sensação de conhecer o negócio, e não é a mesma coisa.

A empresa onde você trabalha. É a concentração mais perigosa: salário e investimento dependendo da mesma empresa. Se ela vai mal, os dois vão juntos.

O ativo de sempre, para quem opera. Operar só o mini-índice porque é o que você conhece é uma escolha legítima, desde que seja uma escolha. O problema é quando todas as estratégias, todos os horários e todo o capital dependem do mesmo movimento, e o dono chama isso de diversificação.

A mesma lógica em estratégias diferentes. Três robôs de tendência no mesmo ativo parecem três estratégias. No dia sem tendência, são uma só perdendo três vezes.

E quem opera só mini-índice?

Não há nada de errado em se especializar num ativo: conhecer o horário, a liquidez e o comportamento dele é vantagem. O viés aparece quando a especialização vira a única fonte de risco sem que ninguém tenha decidido isso. A pergunta é quanto do seu patrimônio depende do mesmo movimento do índice, somando as estratégias, as ações que você já tem e até o fundo da previdência. Se tudo cai no mesmo dia ruim, é uma aposta só, com vários nomes.

Um teste rápido do seu patrimônio

Some tudo o que você tem e responda, em porcentagem do total:

  • Quanto está em reais, dependendo da economia brasileira?
  • Quanto depende da empresa ou do setor onde você trabalha?
  • Quanto está no mesmo tipo de ativo (só ações, só imóveis, só renda fixa)?
  • Quanto das suas estratégias perde no mesmo tipo de dia?

Não existe porcentagem certa para todo mundo. O teste serve para trocar o "sinto que estou diversificado" por um número. Se alguma resposta passa de 80%, a concentração existe, e agora é uma decisão consciente, e não um efeito do que parecia familiar.

O custo

Concentração não é um erro em si; é risco a mais. O custo aparece quando o risco concentrado acontece: o setor que cai inteiro, o país que passa por crise, o ativo que muda de comportamento. O que parecia seguro por ser conhecido cai do mesmo jeito que o desconhecido, e cai junto com o resto da sua carteira.

Como corrigir

  1. Medir a concentração, não senti-la. Quanto da carteira depende do mesmo país, do mesmo setor, do mesmo ativo, do mesmo tipo de movimento?
  2. Diversificar pelo comportamento, não pelo nome. Duas estratégias diversificam de verdade quando perdem em momentos diferentes. Como isso se mede está em Juntar estratégias muda o risco.
  3. Separar o que você conhece do que você mediu. O histórico de um ativo ou de uma estratégia vale mais que a familiaridade com ele.
  4. Não colocar o investimento no mesmo lugar do salário.

Nos nossos portfólios na OnTick, a margem de cada portfólio é calculada pela série combinada das estratégias dele, que mostra quando as quedas coincidem e quando se compensam. O mapa dos outros vieses está em Psicologia do trader.