Análise técnica

Gaps e ilha de reversão

O que é um gap, os quatro tipos que a análise técnica distingue, a ilha que se forma entre dois gaps e como o gap de abertura entra numa regra de robô.

Gap é um buraco no gráfico: o preço fecha num nível e abre no período seguinte em outro, sem negociar nada no meio. Na B3, o gap mais comum é o de abertura: o pregão fecha, o mundo continua, e às 9h o preço aparece longe de onde parou. É um dos poucos momentos em que o gráfico mostra, com clareza, que alguma coisa mudou entre um período e outro.

Os quatro tipos

A análise técnica clássica separa os gaps pelo lugar onde aparecem, porque o lugar muda o significado:

Gap comum. Dentro de uma lateralidade, pequeno, sem volume. Costuma ser fechado (o preço volta ao nível de antes) em pouco tempo. Não diz nada além de "abriu com um pulo".

Gap de fuga (ou de rompimento). Sai de uma consolidação, com volume, e começa um movimento. É o gap que rompe: a resistência que segurava semanas foi pulada de uma vez. Costuma não ser fechado logo, e quando é, o nível do gap vira suporte.

Gap de continuação (ou de medida). No meio de uma tendência, com volume, na direção dela. Aparece quando o movimento ganha participantes. O nome "de medida" vem da regra prática de que ele costuma ficar mais ou menos no meio do movimento, o que dá uma estimativa de até onde vai.

Gap de exaustão. No fim de uma tendência, o último salto, com volume alto e sem continuação. Os últimos compradores entram, e não sobra ninguém. Costuma ser fechado rápido, e o fechamento é o sinal de que a tendência acabou.

O problema, como sempre: os quatro só se distinguem depois. Na hora, um gap de fuga e um de exaustão parecem iguais. É o volume e o que vem nos candles seguintes que dizem qual era.

A ilha de reversão

Uma ilha se forma com dois gaps em sentidos opostos: um gap de exaustão para cima, alguns candles negociando lá em cima, e um gap para baixo que devolve tudo. Os candles do topo ficam isolados, separados do resto por dois buracos: uma ilha.

É uma das figuras de reversão mais confiáveis, justamente por ser rara e violenta: quem comprou na ilha está preso acima do mercado, e cada tentativa de sair vira pressão vendedora. O alvo costuma ser medido pelo movimento que levou até a ilha, e o stop fica acima dela.

Uma tendência de alta com um gap comum, um gap de fuga e, no fim, dois gaps em sentidos opostos formando uma ilha de reversão isolada no topo
Gap de fuga no começo da alta; no fim, o gap de exaustão e o gap de volta deixam uma ilha. Ilustração.

O gap fecha?

A frase "todo gap fecha" é folclore. Muitos fecham; os de fuga e continuação podem levar meses ou nunca. Operar contra um gap porque "vai fechar" é apostar que ele é comum, e o comum é o menos interessante dos quatro. Em contrapartida, gap comum em lateralidade fecha com frequência suficiente para existir regra baseada nisso, desde que o stop cuide dos que não fecham.

O gap de abertura no mini-índice

Para quem opera o dia, o gap que importa é o da abertura: a distância entre o fechamento de ontem e a abertura de hoje. Ele carrega tudo o que aconteceu no exterior e nas notícias da noite, e o comportamento da primeira hora depende dele.

Duas leituras comuns viram regra:

  • Fechamento do gap. O preço abre com gap e, na primeira hora, volta ao fechamento anterior. A regra opera na direção do fechamento, com alvo no fechamento de ontem e stop além da abertura.
  • Continuação do gap. Gap grande, com o exterior confirmando, e o preço não volta: a regra opera a favor, com o gap como suporte.

Qual das duas funciona depende do tamanho do gap, do horário e do dia. É o tipo de coisa que só o backtest responde, e que muda de ano para ano.

Como isso vira regra num robô

Gap é aritmética pura: abertura de hoje menos fechamento de ontem, em pontos ou em porcentagem. Por isso é uma das condições mais fáceis de programar. No Centurion, o gap de abertura é um bloco de sinal, que serve como gatilho (gap maior que X pontos) ou como filtro (só opera se o gap está dentro de uma faixa), e combina com os blocos de janela de abertura e de níveis do dia anterior, que são as referências naturais para as duas leituras acima.

A ilha de reversão, como figura, pede definição por número (dois gaps opostos em N candles); é rara demais para sustentar uma estratégia sozinha e útil como filtro de saída em estratégias de tendência.

O que levar

  • O lugar do gap diz mais que o tamanho.
  • "Todo gap fecha" não é regra; é uma frase.
  • No day trade, o gap de abertura é o primeiro dado do dia, e vale uma regra própria para ele.
  • Ilha é reversão de verdade, e é rara. Quando aparece, respeite.